A Quaresma e Semana Santa em Paraty – Década de 1950

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Até a década de 1950, antes do Concílio Vaticano II, assim acontecia, a Quaresma e a Semana Santa aqui. É necessário esclarecer que todas as leituras e cânticos eram em latim, língua oficial da Igreja Católica.
Após o carnaval, na quarta-feira, durante a celebração da Santa Missa o celebrante traçava com o dedo sujo de cinza uma cruz na testa dos fiéis e dizia: Memento homo quia púlvis est et in púlvis revertéris. (lembra-te, homem, que és pó e ao pó retornarás). Era a preparação para os quarenta dias seguintes, de jejum e penitências preparatórias para a Paixão de Cristo. Por esta razão esta quarta-feira é conhecida como “quarta-feira de cinzas”
Durante este período, às sextas-feiras, celebrava-se na Igreja Matriz a Via Sacra ou Via Crucis (Caminho Sagrado ou Caminho da Cruz) nesta cerimônia o celebrante, usando estola roxa, percorria as paredes laterais do templo juntamente com os fiéis, orando e cantando. Paravam junto aos quadros que exibiam cenas da caminhada de Cristo desde sua prisão até o sepultamento.
Na Sexta-Feira de Passos, uma semana antes da Sexta-Feira da Paixão, realizava-se, à tardinha, a Procissão dos Passos. Nela o andor com a imagem do Senhor dos Passos, saía da igreja do Rosário ou do Salão João XXIII, conduzido por homens, no trajeto tradicional das procissões, parando para uma breve alocução do sacerdote sobre a cena dos Passos, cânticos e orações. Ao mesmo tempo saía da Capelinha o andor com a imagem de Nossa Senhora das Dores, carregado por mulheres em direção à esquina da Rua Dona Geralda com a Rua da Santa Rita, onde as procissões se encontravam frente a frente. Ao encontro das procissões o vigário fazia um sermão alusivo ao acontecimento que, muitas vezes, levavam os fies às lágrimas.
No Domingo seguinte acontecia a Procissão dos Ramos. Os ramos ficavam sobre uma mesa na Porta da Igreja do Rosário, onde eram abençoados pelo celebrante e distribuídos ao povo. Em seguida o sacerdote lia um trecho do Evangelho de São Mateus e a procissão dirigia-se à Matriz cantando, ao longo do trajeto; o sacerdote uma antífona e o coro o estribilho.
O Padre cantava: Domini est terra et quae replent eam. Orbis terrárum et quia habítate eam. Nam ipse super Maria fundavit eum, et super flúmina firmate eam. (Ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela contém, o Orbe da terra e os que o habitam. Pois Ele a fundou sobre os mares e a consolidou sobre os rios. Ao que o coro entoava o estribilho: Pueri Haebreórum portantes ramos olivárum, obviavérunt Domino, cantantes et discéntes : Hosana in Excelsis (Os filhos dos Hebreus levando ramos de oliveira, foram ao encontro do Senhor, cantando: Hosana nas alturas.
Ao chegar à Igreja Matriz, as portas estavam fechadas e o celebrante tomava a Cruz Processional e batia com sua ponta na porta por três vezes, enquanto cantava: Attóllite, pórtae, cápitis véstras t attóllite vos fores antiquaes, ut ingredientur Rex glóriae. ( Levantai ó portas vossos umbrais , e alargai-vos antigos espaços, para entrar o Rei da glória.) Do lado de dentro da porta o coro canta, enquanto elas se abrem: Glória, Laus et honor tibi sit, Rex Christe, Redémptor, cui puérile decus prompsít Hosana pium (Glória, louvor e honra Vos sejam dadas, ó Cristo Rei, Redentor, a quem o coro juvenil cantou devotamente Hosana.)
Cantando este hino de louvor a procissão entra na igreja onde é celebrada a Santa Missa.
Obs. Neste tempo ainda existam aqui as Irmandades, que usavam sua opas tracicionais; A de Nossa Senhor dos Passos, roxa com o simbolo da paixa de Cristo; Uma coroa de espinhos com uma cruz ao centro; a de Nossa Senhora da dores, um pequena murça redonda, roxa, com o simbolo da irmndade, Creio que um círculo com um coração traspassado por uma espada.

Parte II

TERÇA-FEIRA SANTA
Até a década de 1960 esta procissão acontecia na Sexta Feira de Passos, uma semana antes da Semana Santa, como foi narrada antes.
Nesta década, l960, o novo Pároco, Moacir Duque, viu que ela não seguia a ordem cronológica dos fatos Paixão de Cristo e a colocou para acontecer na manhã da Sexta-Feira Santa, depois da Procissão do Fogaréu, e passou a denominá-la como Procissão do Encontro e não mais Procissão dos Passos.
Por algum tempo, mesmo tendo mudado os párocos, assim até acontecia. Mas com o advento do turismo, com a abertura de pousadas, novos restaurantes, bares e serviços, a população teve que trabalhar nestes locais no período da noite, impossibilitando-a de participar da procissão no horário matutino. Por esta razão não havia homens fortes e dispostos a carregar o pesado andor de Nosso Senhor dos Passos.
Quando o Padre Roberto Carlos assumiu a paróquia, tomando conhecimento do problema, transferiu esta procissão para terça-feira, à noite, também fora da ordem dos fatos vividos por Cristo, porque havia pessoas para carregar os andores, cruz, tocheiros etc. Na programação da Semana continuou, porém, a ser chamada de Procissão do Encontro, embora tradicionalmente ela era somente uma Via Sacra Pública, como narrei antes. A cerimônia do Encontro do Cristo com sua Mãe, acontecia nesta procissão, daí é fácil dar-lhe esta denominação.
Não sei se por idéia dele ou de algum fiel, foi acrescentada nela a figura da Verônica, figura que encena enxugar o rosto do cristo com um lenço em que fica gravada a face d’Ele. Esta figura, hoje chamada de Verônica antes era conhecida como Anjo Cantor, trajava túnica branca e cantava o moteto: Ó vos omnes qui transitis per viam… (Ó todos vocês que passais por este caminho..) na Procissão do Enterro, na noite da Sexta-Feira Santa.
A meu ver e no meu entender, para evitar confusão, esta procissão deveria voltar a ter sua antiga denominação – Procissão dos Passos.
OBS.
1. Os quadros alusivos à paixão de Cristo nas igrejas são chamados de Estações, assim como os Passos edificados nas ruas da cidade. Passos pode ser traduzido por Paixão (Passio) e também passo.
2. A palavra latina Statio deu origem na língua portuguesa ao verbo estacionar – parar em algum lugar.
3. Sobre a figura da Verônica ou Anjo Cantor vou falar nas cerimônias da Sexta-Feira Santa.

Parte III

QUARTA-FEIRA DE TREVAS
Nunca assisti as cerimônias do Ofício de Trevas, que acontecia na noite de Quarta–Feira Santa. O que vou narrar aqui me foi contado por meu pai, que dela participava.
Nesta noite reuniam-se na Igreja Matriz o celebrante e os fiéis. O sacerdote trajava sobrepeliz, estola e capa de asperges ou pluvial preta.
Esta cerimônia era uma antecipação da paixão e morte de Cristo, preparatória para os acontecimentos seguintes.
Na capela mor ficava um grande candelabro, o Tenebrário, com 15 velas acesas.
Iniciava-se a cerimônia com a leitura de textos, cantos de antífona e salmos, todos em latim. Após as leituras dos textos sagrados e dos cantos, um acólito apagava a primeira vela, na base do castiçal. Isto se repetia até que restasse somente acesa a vela do ápice do Tenebrário. Neste momento o celebrante retirava a vela e a conduzia até atrás do altar, onde ficava escondida.
A seguir, o som vibrante das matracas e um forte ruído produzido por pancadas e vibração de uma folha de zinco, também escondidos, se fazia ouvir. Então o celebrante e os fiéis prostravam-se no chão por alguns minutos em oração.
Uma nova leitura, oração e cantos encerravam a celebração.
Informações adicionais:
• A vela no cimo do Tenebrário representava o Cristo;
• Para simbolizar que Ele não seria visto até Sua ressurreição, a vela era escondida atrás do altar.
• O som das matracas e do zinco reproduziam o que os evangelhos contam ter acontecido momento da morte de Cristo
• Em latim a palavra Trevas se escreve Tenebrae, razão pela qual o candelabro ser chamada do Tenebrário. É interessante lembrar que o Menorá Judeu tem sete velas e qualquer semelhança não é mera coincidência.
• Esta cerimônia deixou de acontecer desde o falecimento do Monsenhor Hélio Pires, na década de 1950.
• Somente voltou a acontecer, com um grupo de jovens, creio que a em 15 anos.
Compêndio das partes 1, 2, e 3, publicadas por Diuner em seu Facebook

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Diuner Mello

Diuner Mello é historiador e pesquisador de Paraty, autor de oito livros sobre a cidade, entre eles “Paraty: História, Cultura & Memória”. Cofundador e ex-presidente do Instituto Histórico e Artístico de Paraty (IHAP), é uma das principais referências na memória local e dedicou sua carreira à preservação do patrimônio histórico e imaterial do município. Em 2024, foi tema da biografia autorizada “Diuner Mello, Pequena Biografia Autorizada”, escrita pela turismóloga Laíse Costa. Nesta coluna, reproduzimos postagens feitas por Diuner em seu Facebook pessoal, com autorização do próprio Diuner.